PREPARAÇÃO DO POLICIAL QUANTO AO USO DA FORÇA LETAL

O tema em tela formou-se a partir do convívio com o meio policial, mais especificamente, por meio da participação e da observação direta e indireta. Foi partindo de experiências, ora como discente ou docente dos diversos tipos de treinamento com armas de fogo, ora diante do uso destas em serviço policial, que se deu à escolha do tema “A importância da preparação policial quanto ao uso da força letal”.

Devemos lembrar que o policial, mesmo investido de sua função, não deixa de ser homem (ser humano com limites naturais) e portador das mais diversas necessidades inerentes a qualquer cidadão e de direitos previstos em nossa Carta Magna. Dentre esses direitos de cidadania destaca –se o respeito à dignidade, e o amparo do Estado a partir das necessidades geradas no exercício da sua profissão.

O presente artigo busca abordar a questão dos limites humanos e dos direitos de cidadania mais detalhadamente dentro da organização policial militar do Estado de Goiás, à qual este autor pertence.

Neste artigo buscaremos fazer um levantamento da atual metodologia de ensino voltada ao treinamento policial com arma de fogo, bem como, apontar propostas de atualizações e modificações a partir de técnicas de treinamento direcionado às questões correlatas aos Direitos Humanos.

Pretende-se verificar a atual metodologia de ensino utilizada no treinamento policial na PMGO para o uso da força letal, incluindo as estruturas físicas, didáticas e logísticas, para que a partir destes dados possamos a tecer algumas considerações técnicas profissionais com o intuito de contribuição para a melhoria na área de treinamento de tiro policial defensivo.

Espera-se estar contribuindo, de tal maneira, a oferecer subsídio técnico/profissional dentro do aspecto da aplicação da Força Policial. Um estudo, dentro de certos limites, capaz de enriquecer e aprimorar o atual sistema de treinamento policial de acordo com a atual política brasileira de segurança publica.

O tema proposto vai de encontro a uma abordagem mais criteriosa a respeito de uma lacuna existente quanto a procedimentos necessários ao policial no momento da aplicação da lei, e, mais especificamente, quando aos diversos níveis de resistência oferecida por parte dos “Agressores”. A sociedade espera, por uma correta aplicação da Força Policial, com eficiência, sem que esteja contida na “Ação Policial” omissões ou excessos.

Resta-nos, então, investir em qualidade e intensidade na área de Recursos Humanos (treinamento policial), preparando, acompanhando, e apoiando o policial em suas atividades operacionais, na interação da policia com a comunidade, e principalmente no momento de gerenciamento de crises, entre outros. Também é importante salientar o aspecto de transversalidade das disciplinas propostas dentro do programa de formação do policial, conduzindo à harmonia e a aplicabilidade entre a teoria e a prática.

Entendemos a importância de estarmos atentos na formação e para o aperfeiçoamento qualificando-o de acordo com uma padronização técnico-científica, voltada para a pratica, embasada nos procedimentos ligados à doutrina de Direitos Humanos, rompendo com os paradigmas atuais dos princípios pedagógicos de treinamento policial. Também é importante salientar o aspecto de transversalidade das disciplinas propostas dentro do programa de formação do policial, conduzindo à harmonia e aplicabilidade entre a teoria e a prática.

Breve Histórico

Há muito as Polícias Militares do Brasil estão ligadas e subordinadas direta ou indiretamente às Forças Armadas (Exército Brasileiro), tendo um papel constitucional de auxiliar (Constituição Federal, Art. 144, parágrafo VI). Durante o período do regime militar, em seus mais de vinte anos de vigência, as polícias militares tiveram uma atuação mais efetiva atrelada ao exército.
Desta forma as policiais militares do pais absorveram intensamente todo tipo de treinamento militar, tratando a questão de segurança publica e a responsabilidade do “combate à criminalidade” com tema de segurança nacional, sob o controle das Forças Armadas.
No que tange ao treinamento das Polícias Militares na área do armamento e tiro, este era procedido pelos manuais de tiro de combate do Exército que tratava da questão como eliminação do inimigo, tal como ocorre em uma guerra (Manual de tiro de Combate / Ministério do Exército).
Também grande parte dos armamentos e munições, na maioria bélicos e com características desfocadas para o uso no serviço policial (dado ao grande poder de fogo e com previsão de uso coletivo previstos para o enfrentamento em Batalhas, como as que ocorreram na 1ª e 2ª Guerra Mundial), foram repassados pelo Exército Brasileiro às Polícias Militares do Brasil, como exemplos têm: Sub Mtr Hot – Kiss (pesada) 7mm; Fz-Mtr Hot-Kiss (leve) 7mm; Fz – Mtr ZB 7mm; Fz – Mtr Madsen 7, 62, entre outros.
Como podemos verificar, durante o período do regime militar as Polícias Militares do Brasil receberam uma influência direta das Forças Armadas, e no que tange ao treinamento, este foi voltado para a perspectiva militar – Tiro de Combate – com enfoque na eliminação do inimigo, conforme a doutrina militar do Exército. Foi assim que, a partir daí, formou-se uma cultura de treinamento para os policiais militares aos moldes do Exército, através de gerações de instrutores até que, com o advento da Constituição de 1988, que reforçou uma série de direitos, incluindo os contemplados na Declaração de Direitos Humanos, iniciou-se uma busca, mesmo que lenta, porém contínua, da adequação dos treinamentos específicos de armamento e tiro. Desta feita, com uma conotação policial voltada às questões atuais de segurança pública que procura romper com a Doutrina de Segurança Nacional, à luz de Lei e respeitando os Direitos Humanos.
Algumas instituições policiais militares mais bem estruturadas e a vanguarda de determinados Estados da Federação passaram a investir na capacitação de instrutores de tiro a partir do encaminhamento destes, inicialmente, aos órgãos policiais dos EUA com a finalidade de absorverem conhecimentos e ao retornarem repassarem à corporação de origem. Esta prática de encaminhamento de instrutores policiais em busca de formação também foi estendida a outros países considerados referencia na atividade de tiro Policial como Israel, Alemanha, Espanha, entre outros.
A iniciativa de buscar conhecimentos no exterior deu-se principalmente pela ausência, naquele momento, de estudos e prática de treinamento policial no Brasil voltadas a segurança pública, à luz do Direito, rompendo o paradigma de uma formação ainda enraizada no treinamento exclusivamente militar das Polícias Militares. Visto que esse paradigma não mais atendida aos anseios da sociedade por estar nitidamente desfocado com a real atividade policial e portanto, não apresentava muita eficiência no trato diário com a criminalidade.
Apesar das iniciativas de investimento por parte de algumas Polícias Militares, em geral as mais bem estruturadas, o que ocorre nas regiões Sul, Sudeste e no Distrito Federal, tal fato restringe-se a segmentos mais elitizados e bem treinados dentro da corporação representando um efetivo ainda muito reduzido em relação ao todo, cerca de 8% do efetivo geral.
Outro ponto a ser ressaltado dentro do processo de mudança do treinamento policial quanto à instrução de tiro desde os anos de exceção, refere-se à influência do treinamento advindo das Forças Armadas dando um enfoque ao “Tiro de Combate”, implicitamente ao inimigo. Com a queda do regime militar seguida da formulação da Constituição de 1988 avançou-se muito que tange a direitos individuais. Fatos que desencadearam um processo de democratização possibilitando uma maior conscientização e exigência da sociedade para com a nova instituição governamental como um todo. Atentando para uma maior necessidade de oferecer-se um melhor preparo para o policial, voltando-se à questão da criminalidade social de forma menos repressiva e mais preventiva.
Todas essas mudanças podem ser verificadas com maior veemência no Plano Nacional de Segurança Pública, lançado no governo FHC no ano de 2001. Porém, apesar do despertar para a mudança e os tímidos esforços neste sentido, ainda se vê arraigada na estrutura policial brasileira uma serie de problemas.

Principais metodologias aplicadas nas organizações policiais brasileiras:
Quando à metodologia aplicada nas organizações policiais brasileiras temos:
1- Os sem métodos: aquelas organizações policiais militares que sequer possuem uma metodologia definida de ensino voltada à instrução de tiro policial e aplicam treinamentos casuais a critério do instrutor e/ou da unidade de ensino;
2- Os métodos eminentemente militares de instrução: aquelas organizações policiais militares que ainda se encontram completamente enraizadas nos “Manuais de Instrução de tiro de combate” das Forças Armadas.
Esses métodos ainda tratam os “Criminosos” como inimigos, tendo, portanto ineficiência e ineficácia nas ações e, ainda, gerando impasses relativos a uma melhor aceitação, aproximação e interação da própria sociedade nas atividades de segurança pública e política comunitária;
3- Os métodos estrangeiros: aquelas organizações policiais militares que absorveram na íntegra, toda a metodologia de treinamento proveniente de outros países. Isso ocorre a partir do encaminhamento dos instrutores de tiro destas organizações ao exterior, que por sua vez propagam uma série de atividades que muitas vezes ao exterior, que por sua vez propagam uma série de atividades que muitas vezes não correspondem à realidade sócio-econômica e legal (sob o ponto de vista jurídico) da sociedade brasileira. A doutrina Israelense, por exemplo, trata o criminoso antes de qualquer gerenciamento de crise como inimigo, e com tal, deve ser eliminado.
Já a doutrina Americana (EUA) é extremamente metódica e conta com uma estrutura policial e jurídica intimamente ligadas. Isso possibilita a aplicação do trabalho policial com muito mais imparcialidade e eficiência valendo-se para esse fim do trabalho policial atrelado à ciência, no que muito se diferencia da realidade de um país incluindo na categoria dos “em desenvolvimento” , como o Brasil, que carece de investimento em várias áreas como a educacional, a social, a econômica para se obter eficácia na atividade policial.
4- O método de tiro esportivo: aquelas organizações policiais que adotam o princípio básico de treinamento nas diversas modalidades de tiro esportivo, a partir de regulamentos de clubes de tiro. Até certo ponto isso contribui para a aquisição de uma maior perícia no manuseio da arma e os tiros competitivos, mas, decididamente, não condiz com a realidade profissional que o policial potencialmente irá enfrentar. A instrução nesse caso fica desfocada, deficiente e incompleta em relação à complexa e dura realidade do confronto letal dentro do trabalho policial.
5- O método de tiro policial defensivo: existem organizações Policiais Militares, como a da PMESP (Método Giraldi), que estão à frente, no sentido de investimento e resultados no treinamento policial voltado às questões atuais de
criminalidade. Essas instituições procuram aplicar métodos científicos, dando uma ênfase especial na questão da segurança da ação policial, aliando ao respeito à legislação brasileira e aos Direitos Humanos. Elas também promovem simulação de treinamentos voltados à resolução de confrontos onde haja a real necessidade do uso da força letal, caso tenha-se esgotado todas as outras possibilidades, tratando a questão de forma clara, coerente e aceitável. Dentre esses métodos destaca-se o “Giraldi”.

Principais dificuldades encontradas para a realização do Treinamento de Tiro Policial nas polícias brasileiras
Apontamos algumas dificuldades encontradas em algumas instituições policias no país representando gargalos a serem transpostos para aplicação de uma instrução de tiro policial defensiva de qualidade aos profissionais de segurança pública, seja no âmbito da formação, atualização e/ou aperfeiçoamento, sendo principalmente:
a) Efetivo insuficiente e sobrecarregado em diversas frentes de serviço, dificultando o remanejamento de parcela para a instrução;
b) Falta de investimento e de logística que gera dificuldades na aquisição de armamentos e munição para serem disponibilizados ao treinamento policial;
c) Falta de uma metodologia de instrução de tiro policial eficiente e eficaz;
d) Falta de instrutores devidamente qualificados, e falta de incentivo para assumir o papel de multiplicador;
e) Cultura profissional, um tanto tradicionalista, que resiste a atualização da instrução, que pode ser modificado através da interação entre os órgãos de segurança publica com a promoção de investimento nessa área;
f) Falta de uma estrutura física adequada para a prática ideal da instrução de tiro policial;
g) Falta de uma análise mais aprofundada em relação à responsabilidade de se investir no homem para garantir sua própria sobrevivência.
De qualquer forma, independentemente do nível de instrução em que se encontram as organizações policiais, é preciso agir. É necessário continuarmos
elegendo o investimento no homem como prioridade pois, o tempo parece correr contra enquanto assistirmos o aumento da criminalidade violenta neste país.
Para delimitar a importância do tema veremos mais esclarecimentos a respeito do que é conhecido como tiro policial defensivo.

O que é Tiro Policial Defensivo?
Define-se como tiro policial defensivo, o conjunto de procedimentos adotados pelo profissional de segurança publica, visando resguardar a vida, com a fiel observância da legislação em vigor. Contudo, há que se ter em mente que o uso do Tiro Policial Defensivo, deve ser o último recurso a ser utilizado pelo policial. Ele tem que ser precedido por uma série de aspectos formais que tem como finalidade resguardar a vida e fazer com que sejam esgotadas todas as possibilidades de negociação, controle e gerenciamento de crise, visando convencer o infrator da lei a render-se.
É importante salientar que para se passar à fase de treinamento em pista policial deverá o policial, primeiramente, ter iniciado o nível fundamental ou básico, transpondo o intermediário e, finalmente, chegar ao nível de pista policial defensiva.
O policial deverá receber um treinamento que imite a realidade de um confronto armado, considerado a alteração do estado emocional, sua reação em estado de “estresse”, os “brancos” momentâneos, a dificuldade de definições de imagens claras e objetivas, a visão em túnel, em detrimento à visão periférica, lapsos de audição, a dificuldade de raciocínio rápido, alteração nos batimentos cardíacos, pressão arterial, respiração, rigidez muscular e dificuldades de movimento.
Acreditamos que os tiros efetuados em oportunidade inadequada, além de coloca a vida do cidadão em risco (vítima e agressor), levam muitos policiais a processos judiciais que poderiam ser evitados, assim como o enorme desgaste para a própria instituição.
As pistas policiais devem prever situações de uso de técnica, tática e psicologia aplicadas de forma correta, estudando-se caso a caso. Também é de suma importância à questão da verbalização, sonorização, movimentação e de se estar atento à reação dos alvos que figuram como agressores.
Deve-se coibir o excesso de confiança ou “valentia perigosa” Cel Nilson Giraldi, por parte do policial, proporcionando preparo e condicionamento adequados num eventual envolvimento em situação real.
Existem, ainda, de acordo com o autor dessa obra (Major Flecha) cinco princípios basilares que devem ser observados pelo policial, na possibilidade real de um confronto letal (armado) para que este obtenha amparo e sucesso na ação quanto às respostas corretas à difícil questão: quando, como e porque atirar? Chamamos a atenção, portanto, aos princípios basilares que se seguem abaixo:

01 – Armamento e Equipamento
O armamento e o equipamento, aliado a capacidade de gerenciar crises e efetuar procedimentos corretos constituem os principais instrumentos de trabalho do policial. Este deve ter afinidade com o armamento que irá utilizar no seu cotidiano e possuir conhecimentos básicos, tais como o manuseio, mecanismo de segurança, princípio de funcionamento e fundamentos básicos de tiro quando do uso específico do armamento que irá utilizar.
O policial deve estar apto à utilização de seu armamento e equipamento, sejam individuais ou coletivos. Não é difícil, em nosso meio, detectarmos policiais que passam por curso de formação, porém, sem deterem conhecimento mínimo para utilizar sua arma de fogo em serviço.
A superioridade em armamento e equipamento é um dos itens mais importantes para o sucesso de uma ação policial. Atualmente, os agressores dentro do crime organizado detêm armamento de última geração, que são contrabandeados através do tráfico internacional de armas, isto provoca uma preocupação no policial que, muitas vezes, se vê acuada sem ter como desempenhar de maneira eficiente sua atividade operacional. Daí a importância
de se ter um armamento/equipamento condizentes com a ação em que o policial está empenhado.
Com um armamento adequado e preferencialmente superior ao do seu agressor, em muitos casos, bastaria à demonstração do poderio bélico policial para não ser necessário seu emprego, atuando de forma preventiva, caso não seja o suficiente, terá em seu favor a superioridade de equipamento.
A incapacitarão imediata e poder de parada (Stopping Power) dos projéteis de arma de fogo são essenciais para o sucesso do intento de uma ação policial defensiva, onde for inevitável o uso da força letal. Quanto maior a capacidade de um projétil de neutralizar uma ação agressora, menor o número de disparos serão necessários, gerando, em conseqüência, mais segurança para a ação e menos possibilidade de incidir o policial em excesso no uso da força.
Para se obter um bom desempenho dos projéteis a partir de sua capacidade de neutralização da ação agressora, temos que atentar para a necessidade do policial estar bem equipado e observar algumas variantes que sempre estarão presentes numa ocorrência de disparos de arma de fogo, tais como: além da consideração da relação calibre/munição/armamento (tipo de ponta, carga de propelente) tem-se ainda a característica física da pessoa atingida, a determinação desta para realizar o intento (agressão), o local que fora atingido, os aspectos do uso ou não de psicotrópicos, entre outros.
O policial deverá possuir um bom preparo para agir satisfatoriamente um confronto letal, do contrario, estará à mercê da sorte/revés podendo gerar conseqüências irremediáveis que vão desde a sua morte e de demais policiais envolvidos na ação, como também o uso da força letal num momento inoportuno e portanto ilegal, ou ainda, a morte desnecessária do agressor, ou terceiros inocentes ou a vítima.

02 – Aspectos Legais
O policial tem por missão maior resguardar a sociedade contra situações e outros cidadãos que promovam a infração da lei, e dentro desta ótica devemos ressaltar que o bem maior a ser defendido é a vida, a sua, a da vítima e, se possível a do agressor.
O uso da força pelo policial, mesmo sendo este um atributo de sua profissão tem se dar dentro dos parâmetros da Lei.
Um disparo inoportuno, mal realizado o excesso quando do uso da força letal, pode gerar conseqüências legais indesejáveis, excluindo o amparo do Art. 23 do Código Penal Brasileiro, que retrata as excludentes de ilicitude.
Para a realização do rito defensivo o policial deve se respaldar na legalidade, na qualidade e no momento oportuno, agindo de forma profissional, sem deixar lacunas para procedimentos processuais futuros.
Entende-se que o agente de segurança pública, deve iniciar suas ações de forma gradual e consciente e as decisões deverão estar revestidas da legalidade, legitimidade e proporcionalidade.

03 – Habilitação Profissional
Diz respeito a qualificação do policial através de treinamentos à altura da exigência do serviço que lhe é inerente, principalmente na atuação com o uso da força letal, caso houver necessidade para tanto.
Verificamos que num momento de grande estresse decorrente de uma ação de confronto armado terá que recorrer ao condicionamento anterior adquirido durante o seu treinamento específico, o que é conhecido como memória psicomotora.
O aspecto a ser abordado é justamente o conhecimento assimilado pelos policiais, bem como a eficiência da metodologia didática adotada, pois é sabido que em missão o policial tem que tomar decisões importantes em frações de tempo/espaço muito ínfimos e sob forte estresse.
O policial devera ter a noção exata do que se passa no local do crime ou no sitio da abordagem, para que não coloque em risco a vida humana, principalmente a de inocentes. É sabido que o medo, a falta de segurança e o excesso de confiança gerado pelo próprio policial, são alguns fatores que demonstram falta de profissionalismo, podendo levar a conseqüência irremediáveis.
Em seu trabalho de manutenção da lei e da ordem, o policial não deve buscar artifícios ou justificativas para o uso de sua arma de fogo. Tiros de advertência, tiros de intimidação e outras explicações para uma ação com armamento de fogo sem a devida configuração da necessidade de seu emprego, fará com que este policial seja responsabilizado legalmente.
A atuação policial diante de um quadro de confronto armado e com a necessidade do uso da força letal vai exigir que este tenha sido preparado e condicionado previamente a fim de se ter sucesso na ação. E a instrução do profissional de segurança pública deve ser continuada abordando os delimitadores do uso da força de forma clara.
Naturalmente, em questões conflitantes que levam ao estresse é essencial para solução destas o controle pessoal de quem tem a obrigação de resolvê-las profissionalmente, superando todas as tendências parciais e emotivas peculiares ao ser humano. A habilitação profissional deverá ser capaz de levar o policial a atuar dentro dos parâmetros aceitáveis em uma situação de risco, ou, ainda, diante de um quadro de criminalidade violenta.

04 – O Elemento Surpresa
Entre os princípios de uma abordagem (segurança, surpresa, ação vigorosa, unidade de comando e rapidez), o elemento surpresa, constitui-se em um fator determinante e diferenciador para o sucesso de uma ação policial, principalmente tratando-se da necessidade do uso da força letal. Se o policial perde a surpresa estará inevitavelmente comprometendo os outros pilares de uma boa abordagem, possibilitando uma possível reação do agressor com sucesso, podendo gerar situações que culminem em letalidade.
O profissional de segurança publica deve preservar vidas e, para minimizar o perigo, devemos considerar alguns aspectos, entre eles o elemento surpresa, composto de algumas determinantes: visualização, verbalização, superioridade de efetivo, superioridade em qualidade de armamento e equipamento, e ainda, a antecipação de uma possível reação por parte dos agressores. A não observância desses aspectos pode reverter à vantagem da ação policial para o agressor deixando a ação policial neutralizada e, até mesmo, imprudente e impraticável.
Diante do exposto, temos a certeza de que se utilizando do elemento surpresa o agente de segurança estará com certa vantagem em relação ao seu agressor, dando aquele à tranqüilidade e a confiança necessárias durante uma ação, pois a cada ocorrência se exige do policial um estado de alerta proporcional à situação apresentada.
O policial deve estar atento à antecipação da ação, pois mesmo com todo treinamento recebido para o exercício de sua função, procurando condiciona-lo a procedimentos e ações que prevejam uma serie de situações, ainda assim, é essencial que o policial esteja atento, tendo maturidade e cautela, promovendo estratégias seguras com o intuito de agir no sentido de neutralizar ações agressoras adversas, evitando tornar-se uma vitima em potencial.
Quanto aos níveis de alerta, embora esteja implícito como condição exigida a toda atividade policial o fato de estar em alerta, deve-se apresentar alguns esclarecimentos didáticos em relação às diversas situações que possam surgir, As quais exigem níveis de alerta diferenciados pois, não basta estar bem armado e equipado, com habilitação para o agir e ainda dentro do amparo legal, também é de suma importância estar em nível de alerta condizente com a situação.
A atividade policial é desenvolvida sob os aspectos preventivo e repressivo, consoante seus elementos motivadores (ação dos agressores da sociedade) que coloquem o policial em constante situação de risco, deve o mesmo permanecer em nível de alerta condizente com a situação evitando-se gerar uma fadiga desnecessária, porém, deve estar atento e preparado para a qualquer momento se necessário passar a outro nível de alerta superior para não deixar margem a que um agressor em potencial o surpreenda.
Também é importante que o policial esteja preparado para não agir, caso tenha sido surpreendido em situação adversa, Isto é, o policial que for encontrado com o fator surpresa em desfavor a sua pessoa e/ou equipe, precisa ter o controle necessários para saber o momento ideal de reverter, se possível, o fator surpresa. Quase sempre seu agressor deixará uma margem para que ele possa agir oportunamente. Este controle só é adquirido por policiais bem orientados que têm a segurança e o preparo profissional adequados para o desempenho ideal de sua função junto á sociedade.

05 – Aspectos Psicológicos
Para o bom desenvolvimento da função a atividade policial deve estar intimamente atenta aos fatores psicológicos. O policial tem que possuir uma personalidade bem definida. O ser humano, em situação de estresse, tende a perder o seu raciocínio intelectual, trabalhando apenas com seu raciocínio intuitivo ou por meio de seu condicionamento psicomotora.
Dessa forma, em uma possível situação de perigo, onde o policial entra em uma situação de estresse, seu conhecimento intelectual de quando atirar fica prejudicado. O policial que só pode agir com força letal se a situação se enquadrar dentro das excludentes de criminalidade, tendo uma difícil tarefa de visualizar, ouvir, identificar e agir corretamente em uma situação de tiroteio e, sob estresse, poderá ser pego numa situação de incerteza no desfecho de ocorrência.
Essa situação pode gerar conseqüências irremediáveis, tais como alvejar pessoas inocentes, ser ele próprio alvejado ou, ainda, provocar a letalidade a algum componente de sua equipe policial.
Como já vimos anteriormente o aspecto psicológico agem diretamente sobre o desfecho da ocorrência em que o policial se vê na necessidade do uso da força letal.
Mesmo com todos os outros quesitos para o sucesso da ação presentes, ou seja, a utilização de um bom armamento, munição e equipamento; a habilitação; o aspecto legal; o elemento surpresa; ainda falta para o desfecho da ocorrência o aspecto legal; o elemento surpresa; ainda falta para o desfecho da ocorrência o aspecto psicológico. O agressor, mesmo percebendo-se que o policial esta em grade superioridade e legitimidade para ação, ainda pode dar continuidade no intento da ação letal contra o policial ou inocentes. As motivações podem ser variadas, tais como, hipoteticamente: 1º – Tratar o agressor de um foragido do Sistema Prisional, condenado a pena máxima e portanto disposto a reagir para que não retorne ao cumprimento da pena; 2º – Psicopata que, dado ao grau de periculosidade e violência assumira as conseqüências de reagir; 3º – Agressor sob efeito de psicotrópicos extremamente agressivo e com perda momentânea do raciocínio lógico.
Alem disso, o policial no momento do desfecho da ocorrência em que se exige o uso da força letal, não estando atento à questão psicológica, incorre num instante de colapso do raciocínio lógico e de ação, possibilitando ao agressor sacar a arma da cintura e alveja – lo. Outra possibilidade é de o agressor tomar a arma do policial e alveja – lo com a sua própria arma. Isso pode ocorrer, pois, a fração de tempo, normalmente, é curta, representando segundos de tempo.
O policial numa necessidade do uso de sua arma de fogo em sua própria defesa, pode titubear a partir do efeito psicológico, com a criação de bloqueios diversos para tomada de decisão, tais como: “nunca ouve a real necessidade de atirar em alguém”; “não vou envolver-me em processo”; “vou resolver com o uso de outras formas de controle mais brando (verbal, físico, etc.)”; “vai prejudicar minha ascensão à carreira”; “falta pouco tempo para aposentar – me e não vou envolver – me em ocorrências desta natureza”; ou por problemas de ordem ideológica e/ ou religiosa.

Consideração Finais
Estamos convictos de que todos os investimentos técnico-profissionais voltados ao treinamento policial que visem à melhoria da qualificação do policial são essenciais e devem ser compartilhados com as organizações policiais, incluindo as experiências que obtiveram êxito, seja durante o treinamento/preparação, ou em estudo de caso durante a atividade operacional no que se refere ao confronto com uso de arma de fogo.
A aplicação dos princípios dos Direitos Humanos, e demais fundamentos éticos e legais se mostram compatíveis e imprescindíveis à inclusão nas disciplinas de tiro policial defensivo com vistas à preservação de vidas o que sugere o “Método Giraldi”.
Por fim, deve-se investir numa boa formação do policial, rompendo-se com antigos paradigmas, pois é através do treinamento policial continuado, e à altura de sua espinhosa missão é que se atingirá as condições ideais à realização do trabalho policial junto à sociedade brasileira.

Referências
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revisada e ampliada. Ed. Nacional. São Paulo. 1987.
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SCHRODER, André Luiz Gomes. Artigo – Princípios Delimitadores do Uso da Força para os Encarregados da Aplicação da Lei. Edição Independente. Ano 2000.

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